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Mudanças climáticas devem tornar costa do Ceará mais quente e árida

Projeções indicam que vulnerabilidades do litoral, como avanço do mar e erosão, também seriam potencializadas

O aumento do nível do mar e a erosão no litoral já são apontados como reflexos da mudança climática no Ceará. A Praia do Icaraí (foto), no Município de Caucaia, é um dos pontos mais afetados na região costeira ( Foto: Fernanda Siebra )

Um Ceará cada vez mais quente, mais seco, marcado por extremos climáticos e pela maior vulnerabilidade a ameaças naturais, como estiagens, ressacas do mar e erosão costeira. Essas são as projeções do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) para os próximos anos no Estado e em outros pontos da costa do País caso as emissões de Gases do Efeito Estufa (GEE) e outros fatores diretamente relacionados ao aquecimento não sejam desacelerados..Plano de metas será elaborado, diz Secretaria

Os resultados fazem parte do estudo "Impacto, vulnerabilidade e adaptação das cidades costeiras brasileiras às mudanças climáticas", lançado no início deste mês. Conforme o relatório, que avaliou a situação em cidades como Fortaleza, Salvador, Recife e Rio de Janeiro, localidades litorâneas já estão sofrendo efeitos das mudanças climáticas e podem vir a ser ainda mais afetadas no futuro. Vulnerabilidades já existentes na região, a exemplo de secas, ressacas do mar, extremos de temperatura e até o desenvolvimento de epidemias tendem a se intensificar pelas mudanças climáticas.

Projeções de chuvas, mudanças de temperatura e extremos climáticos presentes na análise indicam que, no futuro, a Capital e o restante da costa cearense poderão vivenciar maior quantidade de dias e noites quentes, ventos mais fortes e elevação do nível do mar. Nas simulações realizadas por pesquisadores, a possibilidade de haver alterações torna-se maior à medida que as concentrações de GEE crescem.

Seca

"Ainda não há certeza se o total de chuvas vai diminuir ou só ficar mais irregular, mas sabemos muito bem o que vai acontecer com evapotranspiração. Ela vai aumentar de maneira muito acentuada até o fim do século e isso implicará em aumento da aridez. Cerca de 80% dos modelos, mesmo em cenários que apresentam algum grau de mitigação, apontam para aumento de aridez, com formação de várias áreas áridas pelo Nordeste", observa Alexandre Araújo, professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e membro do PBMC.

Embora os resultados do estudo mostrem cenários futuros, as mudanças climáticas já demonstram efeitos no presente. No Ceará, o forte avanço do mar evidenciado no litoral e a intrusão salina (penetração de água salgada em zona de água doce) observada em lençóis freáticos da zona costeira são reflexos atuais de um processo que, conforme destaca o especialista, vem se acentuando desde o século passado. Nos últimos 100 anos, afirma Araújo, o mar subiu, em média, entre 30cm e 40cm, quantidade suficiente para potencializar danos à costa.

"Outro aspecto é a seca de 2012 a 2016. Não podemos afirmar que ela esteja estritamente vinculada às mudanças climáticas, isso requer mais investigação. Não obstante, é preciso que se afirme que foi uma sequência inédita de cinco anos com chuvas abaixo da média. O interessante é que somente um desses anos foi de El Niño forte. Em condições normais, talvez se esperasse que só esse ano fosse de seca severa", ressalta.

Se, de um lado, a vulnerabilidade a fortes secas fica maior, de outro, o Estado pode atingir o outro extremo climático. Segundo Emerson Mariano, coordenador do mestrado da Uece em Climatologia e Aplicações nos Países da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) e África, mesmo em períodos de estiagem, o Ceará vêm apresentando episódios de chuva extrema, oscilação que também pode ser interpretada como reflexo das mudanças climáticas. Um desses eventos, apontado pelo estudo do PBMC, foi a intensa precipitação registrada em março de 2004, que provocou alagamentos e inundações na Capital e afetou milhares de pessoas no Interior. "Em todo o Nordeste, têm acontecido chuvas torrenciais nos últimos anos, mesmo com seca. Aqui no Ceará, há relatos de granizo em Sobral, Mauriti e outras cidades. Até a sabedoria popular diz que o clima está maluco", diz Mariano.

Emissões

No Brasil, o Observatório do Clima, rede formada por entidades que discutem as mudanças climáticas no País, calcula estimativas de emissões de GEE em todos os estados. No que se refere ao Ceará, os dados mais recentes datam de 2015 e apontam uma emissão anual de 29 milhões de toneladas de gases, 10 milhões a mais que o número registrado uma década antes. Os setores de Energia (que inclui geração de eletricidade, transportes e indústria) e de Mudança de Uso da Terra e Floresta lideram a lista de fontes emissoras, sendo responsáveis por 48% e 25% das emissões, respectivamente. Os setores de Agropecuária (19%), Resíduos (6%) e Processos Industriais (2%) vêm em seguida.

Reverter o que indicam as previsões requer ações imediatas do poder público. A principal é o estabelecimento e o cumprimento de metas específicas de redução das emissões de GEE, algo que, no Ceará, e em boa parte dos estados, ainda não existe. O Brasil segue os objetivos determinados no Acordo de Paris, assinado em 2015 por 195 países, que prevê a diminuição de emissões de carbono em, pelo menos, 37% até 2025, e em 43% até 2030. Os percentuais levam em consideração o total de emissões do ano de 2005. Para alcançar essa meta, segundo Alexandre Araújo, o Estado teria que passar a emitir "apenas" 9 milhões de toneladas de GEE por ano, o que, diante dos números atuais, parece uma redução quase impossível de atingir.

Alternativas

Outra medida, a ser promovida paralelamente, seria o maior investimento em fontes de energia menos poluidoras. No Ceará, uma alternativa é óbvia: energia solar. No entanto, ainda não há grandes incentivos para que indústrias, empresas e a própria população passem a adotar o modelo no dia a dia.

"Medidas simples, como a diminuição de impostos, incentivos para empresas de importação do material para implantação de painéis solares, e linhas de financiamento com juros bem baixos poderiam fazer com que a energia solar se tornasse algo mais acessível", diz o professor Emerson Mariano.

Conforme ressalta o docente, por conta da pouca oferta de materiais para montagem de sistemas de energia solar, implantar painéis residenciais chega a custar em torno de R$ 20 mil. "Quem tem esse dinheiro para investir em nome da sustentabilidade?", questiona Mariano. "Precisar haver mais vontade política de escutar a ciência para que se possa implantar essas soluções", completa o professor.

Diário do Nordeste
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