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Na ditadura ‘os dias eram assim’: dividiam famílias

Nove entre dez manifestantes, onde quer que haja protestos neste país costumam, em algum momento, gritar a palavra de ordem: “a verdade é dura. A Rede Globo apoiou a ditadura”. Enquanto a frase ecoa pelas ruas, a emissora transforma o período em produtos. Foi assim com o antigo sucesso “Anos Rebeldes”, (Gilberto Braga- 1992) e, atualmente, com “Os Dias Eram Assim”.
Surfando na onda das séries, a produção não chega a ser um estrondoso sucesso, mas tem atraído um público jovem, na faixa entre 16 e 20 anos, curioso sobre o que não viveu, mas quer saber.
Para os “da época”, a série não consegue profundidade e abrangência, pois o propósito é o entretenimento, mas enfoca dois aspectos importantes da ditadura. Um, o colaboracionismo do empresariado, que financiou a repressão e a tortura. O outro, este menos explorado nos estudos
do tema: o seu cruel poder de se imiscuir nas relações interpessoais. Tal como um copo d’água derramado sobre uma pilha de papéis, ela provocava conflitos, minava confianças, penetrando no seio das famílias, e levava ao confronto gerações asfixiadas pelo autoritarismo. Histórias pinçadas na documentação do período revelam situações dramáticas, uma delas, o estrago causado na família Lanna.

Miguel Cunha Lanna, coronel-aviador, era um quadro de peso na repressão. Foi ele quem repatriou, a pedido da ditadura, Jefferson Cardim, refugiado no Chile, e preso numa ação da Operação Condor, juntamente com o filho. O nome de Lanna figura na lista da Comissão Nacional da Verdade, entre os que tiveram atuação direta em graves violações dos Direitos Humanos, por sua participação, também, no sequestro e desaparecimento forçado de Edmur Péricles Camargo, em Buenos Aires, em 16 de janeiro de 1971. Gauchão, como era conhecido, foi preso por oficiais da Aeronáutica no aeroporto de Ezeiza.

Demonstrando mais apego à ideologia que a um sobrinho, preso por sua atuação na resistência à ditadura, o oficial escreve a um colega torturador e, como Pilatos, lava as mãos quanto ao destino do parente.

Afonso Celso Lanna se encontrava então na penitenciária de Linhares, localizada em Juiz de Fora – onde a ex-presidente Dilma Roussef também esteve -, cumprindo pena por sua atuação política na organização Colina, a mesma em que a ex-presidente militou.

Depois de visitá-lo e ouvir queixas sobre as torturas sofridas, Miguel escreveu ao colega. A história é bastante emblemática e nos revela que a ditadura atingia desde um político, pela cassação, até uma família, esfacelada pela ideologia desvairada de um torturador, que preferiu ficar ao lado do governo, a preservar o sobrinho.

“Autorizo-te por outro lado de fazer uso dos elementos informativos que ela encerra, para qualquer (SIC) fins de interesse da segurança ou do processo ainda em curso aí na região”, recomendou, em sua carta.

E é claro que em 1970, “usar elementos” contra alguém, para a repressão, podia ir desde uma intensificação das torturas, até a morte e o desaparecimento. Chegou mesmo a incluir uma foto de um grupo fazendo atividades físicas, para dizer que um deles era o sobrinho, forte e bem disposto, no banho de sol.

Afonso Celso, que foi incluído na lista dos trocados pelo embaixador americano, só leu e soube do teor da carta de Miguel pela Comissão da Verdade do Rio, mas tomou conhecimento do procedimento do tio, pela mãe, quando voltou do exílio, a tempo de tirar satisfações com ele, antes que morresse. Hoje, diz que o perdoou.

A carta de Miguel Lanna e a foto que Afonso assegura não ser sua -jogando futebol -, foram localizadas no acervo do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro (IHGB), no dossiê produzido pelo então ministro da Justiça, Alfredo Buzaid. O ministro organizou extenso relato, (um calhamaço de quase 800 páginas), com o objetivo de rebater todas as acusações contidas no Relatório Pezzutti; e mais outros tantos casos denunciados lá fora, através da Anistia Internacional, pelo arcebispo de São Paulo, D. Odilo Scherer.

Ao fazê-lo, Buzaid deixou registrados detalhes importantes da repressão, que pretendia negar. Como por exemplo, prontuários de presas políticas (Maria Silvia e Dalva Bonet), transferidas para o Hospital Central do Exército, para se recuperarem da tortura.

Na outra carta, esta endereçada ao sobrinho e que segue junto, para ser entregue pelo colega da repressão, Miguel faz uma confissão de suas atividades, além de revelar técnicas que não deixam dúvidas sobre a sua formação enquanto agente:

“Em primeiro lugar, quero dizer-lhe que, como oficial da Força Aérea, estreitamente vinculado à Revolução de 31 de março, membro ativo e ostensivo do grupo a que vocês os comunistas chamam de “Repressão”, tenho conhecimento de toda a técnica de trabalho de vocês, das instruções que são emitidas dentro de cada grupamento comunista, regulando as suas atribuições, as extensões de seus atos subversivos e terroristas, as suas técnicas de ação, inclusive a maneira de proceder quando forem presos. Destas instruções você obedece, no momento, aquela que determina ao comunista preso que faça tudo para colocar os elementos da “Repressão” (Forças Armadas e Forças Policiais) em choque com a opinião pública.”

No final, antes de se despedir, e depois de humilhar Afonso a ponto de dizer que na infância ele vivia sempre com “as calças borradas”, determina:

“Assim, nos separamos aqui. Não o procurarei mais e nem me preocuparei mais com você até o dia (que não acredito chegue) em que você tenha a percepção justa, a coragem e a dignidade de repudiar o bridão que lhe impõe o partido comunista e resgate de forma convincente os sentimentos e a angústia daquelas duas mulheres (a mãe e a irmã) que você devia proteger e não explorar em favor do comunismo.”

Depois de renegar Afonso, despede-se: ”Seu tio, Miguel Cunha Lanna”.

A carta de Miguel, em que desqualifica o sobrinho e sua luta, passou a ser distribuída a quantos fossem visitar Afonso Celso na prisão, como uma forma de preveni-los de um “perigo” iminente. Até chegar a cair nas mãos de Ofélia, mãe de Afonso e irmã do oficial Lanna. Pode-se imaginar sua reação, numa época em que jovens desapareciam num piscar de olhos, sob a custódia do Estado. A resposta de Ofélia também foi enviada por escrito.

“Veio uma carta sua para o QG dirigindo ofensas gravíssimas a Afonso.

A carta está lá, sendo distribuída para as visitas (…) como um preventivo à visita do mal que está se expondo”…

Por que você não foi à noite até lá, para escutar e ver os rapazes, talvez o seu sobrinho, contorcer-se e gritar num pau-de- arara, sob choques elétricos?

Por que você não faz nada disso? Por que você não faz ainda? Com uma conversa de bons amigos talvez o sargento Andrade e o tenente Ailton (hoje Capitão Ailton Guimarães) se deleitem em descrever os seus métodos de tortura!”

E conclui, aumentando a letra, como numa tentativa de mostrar o tamanho da sua indignação: “Se a sua carta for incluída nos autos, venha você, faça o seu depoimento frente a frente comigo no júri, mas não mande cartas não, por favor! Ofélia”.

A troca de correspondência familiar foi comentada entre mãe e filho, em 1978. Com os ventos da democracia começando a soprar sobre o país, Afonso Celso retornou do exílio formado em Artes Plásticas pela Fachschule für Bildende Kunste Desden, Alemanha. Chocado ao saber da atitude do tio Miguel, marcou com ele um almoço, em que colocou em pratos limpos toda a história de perseguição. Encontrou um homem alquebrado, perto de morrer e, “pelo bem da paz em família nos perdoamos”, contou. Não sou de guardar raiva. Naquele almoço, eu o perdoei”.

Por Denise Assis, jornalista e colunista do Cafezinho.

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